Glossário – OFISP https://ofisp-atualizado.carolina-almeida.com Observatório da Filantropia e do Investimento Social Privado Tue, 23 Jun 2026 19:05:17 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=7.0 https://ofisp-atualizado.carolina-almeida.com/wp-content/uploads/2026/06/ofisp-favicon.png Glossário – OFISP https://ofisp-atualizado.carolina-almeida.com 32 32 Transparência https://ofisp-atualizado.carolina-almeida.com/glossario/transparencia/ Tue, 23 Jun 2026 19:03:30 +0000 https://ofisp-atualizado.carolina-almeida.com/?post_type=glossario&p=300 Definição

Transparência é a prática (e o princípio) de publicização e difusão de informações relevantes sobre organizações, governos e agentes, de forma visível, acessível, atualizada e inteligível. Trata-se de uma ferramenta política e organizacional que conecta poder, accountability e acesso ao financiamento, através da comunicação pública sobre processos, decisões e fluxos de recursos que afetam terceiros, reduzindo assim assimetrias entre quem exerce poder e aqueles impactados por ele. No setor público, relaciona-se ao direito à informação e à obrigatoriedade de divulgação, enquanto no setor do Investimento Social Privado (ISP) constitui uma prática fundamental de governança, que constrói confiança e legitimidade institucional.

Origens e evolução

A transparência tem origem nos debates liberais europeus, desde os séculos XVIII e XIX, incorporando a publicidade dos atos públicos como um dos pilares da democracia. No entanto, foi a partir das décadas de 1970 e 1980 que o termo passou a ocupar posição central nas discussões sobre governança, participação social e responsabilização institucional. Dos intensos movimentos sociais e políticos que emergem nesse período, vinculados aos processos de democratização (ou redemocratização), expansão dos direitos civis e fortalecimento das agendas de accountability e combate à corrupção, a noção de transparência ressurgi no debate público e privado, ganha visibilidade e passa a ser consolidado como uma prática.

No cenário internacional, fundações e governos passaram a incorporar a transparência como elemento estratégico da chamada “boa governança”, vinculando-a à confiança pública, abertura de dados e monitoramento institucional. No Brasil, o tema ganha força após a redemocratização e a Constituição Federal de 1988, mas é consolidado no cenário nacional a partir dos anos de 2010, através dos marcos legislativos e regulatórios da Lei de Acesso à Informação (2011) e o Marco Regulatório das Organizações da Sociedade Civil (2014).

Contexto e relevância

A profissionalização do terceiro setor fortaleceu a transparência como prática organizacional valorizada tanto por financiadores quanto por organizações apoiadas. Relatórios anuais, plataformas de dados, estatutos e códigos de governança, indicadores de impacto e políticas internas passaram a compor o rol da atuação institucional das organizações, refletindo então sua capacidade de gestão e de atingir objetivos, metas ou produzir efeitos concretos.

Ainda, hoje o tema ganha novos contornos a partir das críticas formuladas por organizações periféricas sobre a concentração de recursos e a opacidade dos circuitos de financiamento. Para além dos princípios básicos destacados, hoje a transparência representa uma ferramenta estratégica de democratização do acesso aos recursos. Informações públicas e acessíveis sobre portfólios, áreas financiadas, formas de solicitação de apoio, destino dos recursos e, principalmente, fornecimento de informação sobre todo o processo de financiamento sempre que solicitado, são fundamentais para que organizações periféricas consigam acessar oportunidades de financiamento sem depender exclusivamente de redes pessoais e relações de afinidade.

Debates, disputas e perspectivas

Apesar de amplamente valorizada, a transparência não é um conceito consensual. No ISP, costuma ser associada à credibilidade institucional, gestão eficiente e redução de riscos reputacionais. Nessa perspectiva, predominam práticas relacionadas à prestação de contas, divulgação de métricas e indicadores, e serve até mesmo como subterfúgio que mantém a concentração de poder e a verticalidade entre aqueles que financiam e são financiados, através do discurso da “confiança”. 

Organizações da Sociedade Civil (OSCs), movimentos sociais e pesquisadores apontam os limites dessa abordagem. Uma das principais críticas é que a transparência pode assumir caráter performático, funcionando mais como estratégia de reputação institucional do que como mecanismo efetivo de redistribuição de poder. Nesse caso, organizações divulgam seletivamente informações positivas, enquanto silenciam conflitos, desigualdades e critérios políticos de tomada de decisão.

A partir disso, uma nova perspectiva crítica amplia o debate ao relacionar transparência diretamente às desigualdades territoriais, raciais e sociais presentes no ecossistema filantrópico brasileiro. Nessa abordagem, para além de ser uma ferramenta organizacional, a transparência é uma ferramenta política que viabiliza a captação de recursos e democratiza o acesso ao financiamento.

Exemplos de aplicação prática

No Brasil, algumas iniciativas ajudaram a consolidar a transparência como prática institucional no ISP. Entre elas destacam-se a Carta de Princípios para Transparência e Prestação de Contas do GIFE, o Guia das Melhores Práticas de Governança para Institutos e Fundações Empresariais e, como resultado dessas ações, o Painel GIFE de Transparência: uma plataforma digital que organiza informações institucionais de fundações e institutos filantrópicos associados ao GIFE, a partir de indicadores de transparência.

Mais recentemente, o Guia das Periferias para Doadores, elaborado pela Iniciativa PIPA, reposicionou o debate ao defender que transparência também significa facilitar o acesso de organizações periféricas às informações estratégicas sobre financiamento, viabilizando a captação de recursos. O documento propõe ações e práticas simples que auxiliam na divulgação objetiva dos temas financiados, criação de mecanismos abertos para solicitação de apoio, publicização do destino dos recursos e adoção de linguagem acessível, servindo de ferramenta para mapeamento e solicitação de apoio.

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Participação Social https://ofisp-atualizado.carolina-almeida.com/glossario/participacao-social/ Tue, 23 Jun 2026 19:01:29 +0000 https://ofisp-atualizado.carolina-almeida.com/?post_type=glossario&p=298 Definição

Participação social é um conceito que descreve como indivíduos e grupos tomam parte (informando, deliberando, decidindo e/ou executando) em ações de organizações, programas e políticas públicas que lhes dizem respeito. Abrange desde mecanismos formais, como conselhos, conferências, audiências e consultas públicas, até formas cotidianas de organização comunitária e associativa. A participação social amplia as formas tradicionais de participação política ao complementar a democracia representativa com espaços de deliberação, coprodução e controle social, enfatizando a ação coletiva e continuada de organizações da sociedade civil, associações comunitárias, movimentos sociais e outros grupos organizados. Refere-se, portanto, à capacidade dos cidadãos e das comunidades de se organizarem para transformar realidades sociais, defender direitos e influenciar decisões.

Origens e evolução

No campo do desenvolvimento internacional, a partir de meados dos anos 1970, a Organização das Nações Unidas (ONU) e outras agências internacionais passaram a promover a ideia de “participação popular” como estratégia para fortalecer iniciativas locais e ampliar o envolvimento das populações nos processos de desenvolvimento (ONU, 1981). Entre os anos 1980 e 1990, o Banco Mundial e agências bilaterais incorporaram abordagens participativas em seus projetos, difundindo a ideia de que as comunidades devem participar da definição de problemas, prioridades e formas de implementação das ações.

No Brasil, o conceito ganhou centralidade acadêmica e política entre as décadas de 1970 e 1980, em meio à emergência dos chamados novos movimentos sociais e às lutas pela redemocratização. Esses movimentos reivindicavam não apenas melhores serviços públicos, mas também maior participação da sociedade nas decisões do Estado (Doimo, 1995). A Constituição Federal de 1988 consolidou esse processo ao institucionalizar mecanismos de participação e controle social. Em paralelo, experiências comunitárias como mutirões, associações territoriais e coletivos identitários, contribuíram para ampliar o significado da participação para além dos espaços formais de representação (Tavares, 2014).

Contexto e relevância

Para institutos, fundações e empresas, a participação social tem sido cada vez mais compreendida como um princípio orientador do ciclo de planejamento, implementação e avaliação das iniciativas. Nessa perspectiva, os públicos envolvidos contribuem para a definição dos problemas prioritários, o estabelecimento de critérios de sucesso e a tomada de decisões sobre estratégias e recursos. Na prática, isso significa ancorar a teoria de mudança em hipóteses validadas com a comunidade (o que precisa mudar, para quem e por quê), pactuar limites éticos e criar mecanismos de influência efetiva através, por exemplo, de assentos com voto em colegiados, de parcelas do orçamento definidas por processos participativos e de marcos de revisão no cronograma para reorientar o rumo quando necessário. Tal abordagem busca deslocar práticas que fixam as comunidades numa posição passiva em direção a formas de atuação construídas com elas, a fim de fortalecer a legitimidade, a aderência e a sustentabilidade das ações.

Debates, disputas e perspectivas

O conceito de participação social é atravessado por tensões recorrentes. Uma das mais relevantes contrapõe a participação simbólica à participação significativa. Enquanto a primeira se refere aos processos que consultam indivíduos ou comunidades sem alterar critérios, orçamento ou regras e que tendem a legitimar decisões previamente tomadas, a segunda pressupõe agência, continuidade e influência verificável das comunidades sobre elas e opera na redistribuição, ainda que parcial, do poder decisório.

Outro debate importante diz respeito ao caráter da participação. Para alguns atores, trata-se de um instrumento para aumentar a eficácia, a legitimidade e a sustentabilidade de programas e projetos; para outros, constitui um fim em si mesmo, relacionado ao fortalecimento da cidadania, da autonomia e do poder coletivo. Também são recorrentes críticas à burocratização dos espaços participativos, cuja excessiva formalização pode reduzir seu potencial crítico e mobilizador. Há, ainda, a tensão entre alcance e qualidade da participação: ampliá-la pode diluir a profundidade das discussões, ao passo que arranjos muito especializados podem excluir justamente quem é mais afetado. A mensuração da participação é outro ponto sensível. Contar reuniões e participantes pouco revela sobre distribuição de poder; por isso, combinações de indicadores de processo (diversidade, condições de acesso e permanência) e de influência (propostas incorporadas, recursos reorientados, critérios revistos) tendem a ser mais informativos. Por fim, as desigualdades estruturais exigem cuidado no desenho dos espaços de decisão participativos. Sem regras claras, devolutivas públicas e apoios concretos à presença de grupos sub-representados, mecanismos participativos correm o risco de reproduzir assimetrias de classe, gênero, raça e território, ao invés de enfrentá-las.

Exemplos de aplicação prática

Entre os exemplos clássicos de participação social estão os conselhos de políticas e o orçamento participativo (Avritzer, 2010). Entre os primeiros, destacam-se, no Brasil, os Conselhos de Saúde, onde governo, trabalhadores da saúde, gestores e usuários do Sistema Único de Saúde (SUS) discutem problemas do território, definem pautas e aprovam recomendações. Isso pode levar a mudanças concretas, como a reorganização de fluxos de atendimento e a adoção de critérios de acesso mais justos.

Quanto ao orçamento participativo, no contexto nacional, a experiência de Porto Alegre tornou-se referência: moradores apresentam demandas por região e por tema, votam as prioridades e acompanham a execução das obras escolhidas. Esse modelo ganhou destaque nacional na década de 1990 e alimentou a discussão internacional sobre a participação popular na tomada de decisões orçamentárias, inspirando adaptações em várias cidades do mundo e reforçando a ideia de que parte do orçamento público pode ser definida diretamente pela população.

Para além do setor público, há experiências em que fundos filantrópicos e organizações da sociedade civil compartilham a decisão com as próprias comunidades. O Fundo Brasil de Direitos Humanos realiza editais em que comitês independentes, que incluem ativistas e especialistas, avaliam propostas de organizações de base, com critérios públicos e devolutivas aos proponentes. O Fundo Baobá para Equidade Racial estrutura comissões com lideranças negras para selecionar iniciativas locais, combinando apoio financeiro com formação e acompanhamento das organizações. Já o Fundo Casa Socioambiental trabalha com conselheiros regionais e pequenas doações ágeis para coletivos territoriais, priorizando demandas definidas pelas comunidades e realizando visitas de campo para ajustar a execução. Esses arranjos mostram como é possível compartilhar poder de decisão sobre escolhas que afetam as comunidades, garantindo maior participação social, reconhecendo o protagonismo dos indivíduos e promovendo cidadania ativa.

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Negócios Filantrópicos https://ofisp-atualizado.carolina-almeida.com/glossario/negocios-filantropicos/ Tue, 23 Jun 2026 18:58:36 +0000 https://ofisp-atualizado.carolina-almeida.com/?post_type=glossario&p=296 Definição

Negócios filantrópicos são empreendimentos econômicos cuja propriedade ou destinação dos resultados está vinculada a uma organização sem fins lucrativos, fundação ou entidade filantrópica. O empreendimento opera como negócio, pois produz, vende, contrata e assume riscos, mas seu excedente não remunera acionistas privados e sim sustenta uma missão de interesse público. Na literatura, philanthropic enterprise designa tanto uma forma ampla de compreender a filantropia como atividade empreendedora quanto um arranjo jurídico específico, no qual uma fundação detém um negócio e recebe seus resultados para fins filantrópicos (Ealy, 2005; Dees, 2008; Estados Unidos, 2018).

Origens e evolução

A expressão ganhou densidade em duas trajetórias que se cruzam, mas não se confundem. A primeira é conceitual. Ealy (2005) propõe a ideia para defender que a ação filantrópica pode se beneficiar da criatividade, da experimentação e da capacidade de resposta associadas aos mercados, sem se reduzir a uma lógica comercial. A filantropia, nessa leitura, não se limita ao repasse de recursos para alívio imediato de necessidades, mas participa da criação de mecanismos sociais e institucionais que ampliam autonomia, acesso e participação.

A segunda trajetória é jurídico-institucional. Nos Estados Unidos, o projeto H.R. 3035, de 2017, propôs excepcionar fundações privadas das regras que limitam participações empresariais excessivas, as chamadas excess business holdings (Estados Unidos, 2017). O conteúdo foi incorporado ao §4943(g) do código tributário pela Public Law 115-123, de 2018. A exceção exige propriedade integral do negócio pela fundação, destinação de todo o lucro operacional líquido à entidade e operação independente em relação a doadores e familiares (Estados Unidos, 2018).

Contexto e relevância

No campo do investimento social privado (ISP), o conceito interessa porque tensiona a separação convencional entre doação, investimento e atividade econômica. A forma como uma organização se financia condiciona sua autonomia decisória, sua estabilidade e sua capacidade de sustentar a missão no tempo (Frolich, 1999). O negócio filantrópico aparece como possibilidade de construir receita recorrente a partir de uma operação econômica cuja finalidade última permanece filantrópica.

Sua utilidade não está em substituir a doação pelo mercado, mas em qualificar a discussão sobre as bases materiais de sustentação institucional. Dees (2008) argumenta que filantropos podem usar instrumentos empresariais para subsidiar empreendimentos com finalidade social, sobretudo quando mercados convencionais não oferecem capital paciente para iniciativas voltadas a populações vulnerabilizadas. No Brasil, o termo é uma chave analítica e não uma categoria jurídica. Guornik (2023) o mobiliza para nomear atividades econômicas de organizações da sociedade civil, como bazares, consultorias e treinamentos, quando subsidiam suas ações sociais, distinguindo-as dos negócios de impacto, cuja própria atividade-fim gera o benefício social.

Debates, disputas e perspectivas

As fronteiras do conceito permanecem imprecisas, pois ele tangencia empresas sociais, negócios de impacto e venture philanthropy. A distinção decisiva é que o negócio filantrópico, em sentido estrito, pode não ter finalidade social no produto que vende. Uma empresa de alimentos ou de tecnologia pode atuar em mercado competitivo sem que sua atividade-fim seja social, tornando-se filantrópica pela estrutura de propriedade e pela destinação dos lucros. Confundir propósito do negócio com destino do lucro é o equívoco mais comum na aplicação do conceito.

As críticas mais substantivas recaem sobre governança, poder e mensuração. Permitir que fundações controlem empresas amplia a autonomia financeira, mas cria zonas de ambiguidade entre interesse público, preservação patrimonial e vantagem tributária, razão pela qual a disciplina dos excess business holdings surgiu para limitar participações incompatíveis com a finalidade filantrópica. Há ainda um limite organizacional, pois empreender exige capital, gestão e tolerância a risco. Tratá-los como solução geral para a sustentabilidade das organizações seria frágil, já que, para algumas, a operação econômica amplia autonomia, enquanto para outras produz desvio de missão e exposição financeira (Dees, 2008; Froelich, 1999).

Exemplos de aplicação prática

O exemplo internacional mais conhecido é a Newman’s Own Foundation, vinculada à marca de alimentos Newman’s Own. Após a morte de Paul Newman, em 2008, a empresa e os direitos da marca foram destinados à fundação, que aplica os lucros e royalties da venda dos produtos em sua missão filantrópica. O caso impulsionou o debate que resultou na exceção legislativa norte-americana (Newman’s Own Foundation, 2026; Estados Unidos, 2018).

No Brasil, experiências de geração de receita própria por organizações da sociedade civil dialogam com o conceito, desde que a análise não force equivalências jurídicas inexistentes. Venda de produtos, formação, consultoria e prestação de serviços são estratégias legítimas de sustentabilidade quando subordinadas à finalidade institucional e acompanhadas de governança adequada. Guornik (2023) cita a Liga Solidária como organização que opera negócios voltados à sustentação de suas ações sociais, ainda que não exista no país moldura legal equivalente ao §4943(g).

A contribuição do conceito está menos em oferecer um modelo a replicar e mais em qualificar uma pergunta estratégica para o campo. A forma como uma organização se financia incide sobre autonomia, governança e relação com financiadores, Estado e comunidades. Negócios filantrópicos tornam essa relação visível, ao colocar a atividade econômica dentro da arquitetura institucional da filantropia e ao exigir que o campo enfrente, sem romantização, os vínculos entre dinheiro, missão e poder.

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Organizações da Sociedade Civil Periféricas https://ofisp-atualizado.carolina-almeida.com/glossario/organizacoes-da-sociedade-civil-perifericas/ Tue, 23 Jun 2026 17:25:57 +0000 https://ofisp-atualizado.carolina-almeida.com/?post_type=glossario&p=294 Definição

Organizações da Sociedade Civil Periféricas (OSCs periféricas) são formas de organização coletiva criadas, conduzidas ou enraizadas em territórios marginalizados, como favelas, periferias urbanas e rurais, quilombos, aldeias, comunidades ribeirinhas e territórios marcados por desigualdades no acesso a direitos, recursos, reconhecimento e poder de decisão. O termo reúne organizações formalizadas e iniciativas comunitárias que, mesmo com diferentes graus de institucionalização, atuam na produção de cuidado, cultura, solidariedade, denúncia, reivindicação de direitos e incidência política.

Mais do que localização geográfica, a ideia de “periférica” aponta para uma posição nas estruturas sociais: estar distante dos centros de riqueza, do acesso a direitos básicos, infraestrutura, decisão e financiamento, mas também produzir respostas coletivas, conhecimentos e metodologias próprias. Assim, as OSCs periféricas não devem ser compreendidas apenas pela carência, mas pela capacidade de organizar demandas, sustentar vínculos comunitários e disputar participação social.

Origens e evolução

O conceito de periferia emerge nos debates urbanos latino-americanos das décadas de 1950 e 1960 para nomear territórios produzidos pela expansão desigual das cidades, associados à pobreza, precariedade e distância dos centros. A partir das décadas de 1980 e 1990, moradores, movimentos sociais e coletivos passam a disputar esse significado, reivindicando a periferia como categoria de pertencimento, identidade e ação política.

Essa ressignificação desloca o olhar da ausência para a potência. Sem negar as desigualdades, as periferias passam a ser compreendidas também como espaços de produção cultural, solidariedade, organização, saberes e intervenção pública. Nos anos 2000, a noção de periferias, no plural, reconhece experiências diversas marcadas por marginalização e distanciamento dos espaços de poder. O termo passa a abranger não apenas favelas e bairros populares urbanos, mas também territórios quilombolas, indígenas, ribeirinhos, rurais e outras comunidades historicamente marginalizadas.

Contexto e relevância

No campo da filantropia e do Investimento Social Privado (ISP), as OSCs periféricas ocupam uma posição estratégica e desigual. São organizações que conhecem os desafios dos territórios, atuam na garantia de direitos, respondem a emergências, mobilizam redes locais e produzem soluções territorializadas. No entanto, tendem a enfrentar maiores barreiras para acessar recursos, participar de redes institucionais e ocupar espaços de formulação e decisão.

Essa desigualdade não decorre apenas da falta de financiamento, mas da forma como o ecossistema filantrópico define confiança, capacidade institucional, experiência prévia, impacto e legitimidade. Critérios aparentemente neutros podem favorecer organizações já reconhecidas e próximas dos centros de poder, enquanto iniciativas periféricas sustentam parte significativa de suas ações com recursos mobilizados nos próprios territórios. Portanto, fortalecê-las exige democratizar fluxos de financiamento, reduzir barreiras burocráticas, criar mecanismos de repasse dos recursos mais transparentes e ampliar sua presença nos espaços decisórios e reconhecer os conhecimentos produzidos nos territórios.

Debates, disputas e perspectivas

Uma tensão importante do conceito está na relação entre a definição formal de Organização da Sociedade Civil e as formas concretas de organização que emergem nas periferias. No Brasil, muitas definições de OSC tomam como referência a existência de CNPJ, estrutura administrativa e formalização jurídica. Contudo, parte expressiva das iniciativas periféricas atua por meio de coletivos, redes, grupos culturais, mobilizações comunitárias e arranjos territoriais que escapam desses critérios.

Por isso, o conceito de OSC periférica amplia o olhar sobre a sociedade civil organizada. Ele não elimina a importância da formalização, mas questiona quando ela se torna requisito excludente e exclusivo de legitimidade. O debate central não é apenas quem possui CNPJ, mas quem produz ação coletiva, quem responde às demandas do território, quem acessa recursos, quem participa das decisões e quem é reconhecido como sujeito político no campo social e filantrópico. Pensar em OSCs periféricas é reconhecer que a sociedade civil não se organiza de maneira homogênea e que as formas periféricas de atuação desafiam modelos institucionais tradicionais.

Exemplos de aplicação prática

O Movimento Cultural das Periferias (MCP) exemplifica como organizações periféricas articulam cultura, participação política e defesa de direitos a partir das demandas dos territórios. Sua atuação evidencia que a cultura pode ser forma de mobilização, pertencimento e incidência pública.

No campo da filantropia, a Iniciativa PIPA contribui para ampliar a visibilidade e o fortalecimento de organizações e lideranças periféricas, pautando barreiras de acesso a recursos e sua presença nos espaços de decisão. Esses exemplos mostram que fortalecer OSCs periféricas não significa apenas financiar projetos, mas enfrentar desigualdades estruturais de poder, reconhecimento e participação.

Materiais para aprofundamento

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Investimento Social Privado https://ofisp-atualizado.carolina-almeida.com/glossario/investimento-social-privado/ Tue, 23 Jun 2026 17:24:19 +0000 https://ofisp-atualizado.carolina-almeida.com/?post_type=glossario&p=292 Definição

De acordo com o GIFE, Investimento Social Privado (ISP) é a destinação voluntária de recursos privados de forma planejada, monitorada e sistemática para projetos sociais, ambientais, científicos e culturais de interesse público. Abrange tanto organizações que captam recursos e os repassam para terceiros quanto organizações que possuem recursos próprios e executam suas próprias iniciativas e/ou repassam seus recursos para terceiros. Incluem-se no universo do investimento social as ações sociais realizadas por empresas, fundações e institutos de origem empresarial ou instituídos por famílias, comunidades ou indivíduos.

Origens e evolução

O ISP é um conceito formulado no final dos anos 1990 pela socióloga e então Diretora Executiva do GIFE, Rebecca Raposo, passando então a ser adotado por executivos e lideranças de empresas, fundações e institutos para designar uma modalidade de atuação social do setor privado, especialmente empresarial, que buscava se diferenciar das formas mais tradicionais de filantropia e da Responsabilidade Social Corporativa (GIFE, 2026).

Sua origem está associada ao processo de constituição do campo da filantropia institucionalizada no Brasil, particularmente em São Paulo, em torno do Grupo de Institutos, Fundações e Empresas (GIFE). Criado em 1995 a partir de articulações iniciadas em 1989 no Comitê de Relações Comunitárias da Câmara Americana de Comércio (Amcham), o GIFE foi fundamental para a consolidação e difusão do conceito. Embora a expressão já estivesse presente nos primeiros documentos da organização, sua adoção ocorreu gradualmente, como parte de um esforço para distinguir a ação social empresarial organizada das práticas filantrópicas tradicionalmente associadas à caridade, ao assistencialismo e aos escândalos envolvendo entidades filantrópicas no início dos anos 1990, fenômeno que ficou conhecido como “pilantropia” (Nogueira, 2014).

O conceito de Investimento Social Privado foi se desenhando, ao longo dos anos 1990, com o nascimento de organizações estruturantes do campo filantrópico brasileiro, como o GIFE, o IDIS e o Instituto Ethos, constituindo uma forma de autoidentificação de um setor emergente que buscava afirmar sua legitimidade e diferenciar-se das práticas filantrópicas tradicionais (Holanda, 2025). Nesse processo, o termo passou a expressar uma mudança de sentido importante: da doação e assistência pontuais para uma atuação estratégica, planejada, monitorada e orientada por resultados, com crescente envolvimento em agendas de governança social e incidência em políticas públicas (Pineda, 2023).

No Brasil, o ISP consolidou-se como a designação para o uso voluntário de recursos privados destinados a iniciativas de interesse público, de forma sistemática e estruturada. Embora apresente proximidades com conceitos internacionais como filantropia estratégica, filantropia institucional e filantropia corporativa, o termo adquiriu características próprias no contexto brasileiro, fortemente associado à atuação de empresas, institutos e fundações privadas.

Principais marcos

1989Encontros informais na Amcham do grupo de interesse em filantropia que viria a se tornar o GIFE
Anos 1990Profissionalização e diferenciação da caridade tradicional e da filantropia estratégica
1995Institucionalização do GIFE
1998Criação do Instituto Ethos de Responsabilidade Social Corporativa
1999Criação do conceito de Investimento Social Privado Criação do IDIS
2000Primeiro Congresso GIFE: Congresso Nacional sobre Investimento Social Privado

Contexto e relevância

Hoje, atores do campo usam ISP para designar práticas de institutos, fundações, empresas, famílias e organizações independentes que mobilizam recursos privados para agendas públicas. O termo está associado a estratégias como grantmaking, execução direta de projetos, apoio a organizações da sociedade civil e fortalecimento institucional, redes, advocacy, produção de conhecimento, avaliação, coalizões e incidência em políticas públicas  (GIFE, 2026).

O conceito vem sendo usado no Brasil nos últimos trinta anos especialmente para diferenciar práticas estruturadas de investimento social de práticas assistencialistas ou associadas a escândalos de corrupção no setor, como uma construção discursiva  (Pineda, 2023).

Sua importância está em permitir compreender um ator híbrido: privado na origem dos recursos, mas voltado a finalidades públicas. Ele ajuda a analisar como empresas, fundações e institutos constroem legitimidade, influenciam agendas, profissionalizam práticas e disputam sentidos sobre desenvolvimento, educação, equidade e democracia (Alves et al., 23013).

Debates, disputas e perspectivas

Existe consenso sobre o termo?

Não há consenso pleno. Há uma definição operacional relativamente estabilizada entre as instituições do  campo – como GIFE e IDIS -, mas persistem disputas. Parte dos atores vê o ISP como contribuição legítima da sociedade civil; outra parte critica sua origem empresarial, seu poder econômico, sua baixa accountability, riscos de influência privada sobre políticas públicas, reprodução de lógicas neoliberais e distanciamento das comunidades (Pineda, 2023). Para alguns atores do campo, ISP poderia ser um sinônimo de filantropia institucionalizada, tal como no caso do GIFE que possui uma base heterogênea de associados. Para outros, há uma diferença de cunho ideológico tanto na conceituação quanto nas práticas do ISP que o diferenciam de filantropia.

Quais são as interpretações divergentes ou críticas no campo?

Não há consenso sobre o conceito de Investimento Social Privado (ISP). Uma das principais críticas refere-se à sua própria origem, entendendo o termo como uma estratégia discursiva criada por organizações como GIFE, IDIS e institutos empresariais para diferenciar sua atuação da filantropia tradicional, associada à caridade e ao assistencialismo. Nessa perspectiva, o ISP representaria menos uma ruptura com práticas anteriores e mais uma ressignificação da filantropia voltada à construção de legitimidade para atores privados. Também são frequentes as críticas relacionadas à forte influência de modelos filantrópicos norte-americanos na constituição do campo brasileiro, embora estudos recentes mostrem que essas referências foram apropriadas e reinterpretadas de acordo com as especificidades do contexto nacional (Nogueira; Schommer, 2009; Holanda, 2025).

Embora o investimento social privado tenha avançado na busca por impacto público e incidência em políticas públicas, suas estruturas de governança permanecem marcadas pela baixa diversidade racial e de gênero, que tende a limitar a capacidade de reconhecer desigualdades estruturais e de priorizar agendas voltadas à equidade (Alves; Pineda, 2019). Contudo, esta compreensão de que uma filantropia verdadeiramente transformadora não depende apenas do que financia, mas também de quem ocupa os espaços de decisão não é consensual:

Os dados apontam para uma disposição das organizações em construir mecanismos institucionais para promover e ampliar a diversidade de raça e gênero em se tratando de equipes, mas esse movimento não transborda para instâncias de decisão, como os conselhos deliberativos (GIFE, 2023 pg. 115).

Outra linha crítica questiona a crescente influência de investidores sociais privados sobre agendas públicas, especialmente por meio de advocacy, financiamento de pesquisas, produção de conhecimento e participação em redes de formulação de políticas. Esses autores argumentam que fundações e institutos empresariais dispõem de recursos econômicos, técnicos e simbólicos que lhes conferem capacidade de influência superior à de outros atores da sociedade civil, levantando questionamentos sobre representatividade, accountability e legitimidade democrática. Há ainda a crítica ao ISP ser utilizado majoritariamente por atores empresariais e/ou ligados a elites financeiras do país,  um análogo possível ao filantrocapitalismo norte-americano (Sklair, 2021; Silva, 2020). A discussão de fundo contrapõe-se a uma filantropia progressista e/ou de justiça social, representada em sua maioria por fundos temáticos independentes, que vêm se fortalecendo no país nas últimas décadas. Parte dos estudos  sustentam que o campo contribuiu para a profissionalização da filantropia brasileira, difundindo práticas de planejamento, monitoramento, avaliação e articulação com políticas públicas, com potencial para ampliar a efetividade das ações voltadas ao interesse público (Pineda, 2023; Alves et. al, 2013).

Quais são as interpretações divergentes ou críticas no campo?

As divergências aparecem entre atores: empresas tendem a enfatizar eficiência, resultado e reputação; OSCs e movimentos sociais tensionam participação, justiça social e poder decisório; a academia oscila entre análises construtivas e críticas; financiadores internacionais influenciaram a infraestrutura do campo; e movimentos sociais pressionam para incorporar agendas como raça, gênero, direitos e equidade, muitas vezes não originárias do ISP (Pineda, 2023).

Exemplos de aplicação prática

Exemplos que materializam o conceito incluem GIFE, IDIS, Fundação Ford, Fundação W. K. Kellogg, Fundação Lemann, Instituto Ayrton Senna, Fundação Tide Setubal, entre outras.

Materiais para aprofundamento

  • [Artigo] Alves, M. A., & Pineda, A. M. (2019). O valor das diferenças no investimento social privado em educação. In Artigos GIFE (Vol. 1, No. 1, Artigo 1). GIFE. Link: https://doi.org/10.4322/978-85-88462-37-3-01
  • [Artigo em congresso] ALVES, Mário Aquino; NOGUEIRA, Fernando do Amaral; SCHOMMER, Paula Chies. Profissionalização e lógicas institucionais: o profissional do investimento social privado no Brasil. In: ENCONTRO ANUAL DA ANPAD – ENANPAD, 37., 2013, Rio de Janeiro. Anais […]. Maringá, PR: Anpad, 2013. p. 1-16. Link: 
  • [Relatório] GIFE. 2026. 30 Anos. Link: https://gife.org.br/gife-memoria/
  • [Relatório] Grupo de Institutos, Fundações e Empresas (GIFE). (2025). Censo GIFE 2024–2025. GIFE. Link: https://sinapse.gife.org.br/download/censo-gife-2024-2025 
  • [Tese de doutorado] HOLANDA, Bruna de Morais. From philanthropy to private social investment: trajectory and practice. 2025. Tese (Doutorado em Administração Pública e Governo) – Fundação Getulio Vargas, Escola de Administração de Empresas de São Paulo, São Paulo, 2025. Link: https://repositorio.fgv.br/items/743d1af6-f453-49b1-b7b9-a0c73658e230/full 
  • [Verbete] NOGUEIRA, Fernando do Amaral. Investimento social privado. In: BOULLOSA, Rosana de Freitas (org.). Dicionário para a formação em gestão social. Salvador: Ciags; UFBA, 2014. p. 109-111.
  • [Artigo em congresso] NOGUEIRA, Fernando do Amaral; SCHOMMER, Paula Chies. Quinze anos de investimento social privado no Brasil: conceito e práticas em construção. In: ENCONTRO ANUAL DA ANPAD – ENANPAD, 33., 2009, São Paulo. Anais […]. Maringá, PR: Anpad, 2009. p. 1-16. Link: http://idis.org.br/wp-content/uploads/2009/11/ISP_15_anos.pdf
  • [Tese de doutorado] PINEDA, Andréa Martini. O valor das diferenças na educação: equidade no discurso e no advocacy do investimento social privado brasileiro. 2023. Tese (Doutorado em Administração Pública e Governo) – Fundação Getulio Vargas, Escola de Administração de Empresas de São Paulo, São Paulo, 2023.
  • [Artigo] ROSSETTI, Fernando. *Da filantropia ao investimento social privado*. [S.l.]: Worldwide Initiatives for Grantmaker Support (WINGS), 2010. Link: https://sinapse.gife.org.br/download/da-filantropia-ao-investimento-social-privado.
  • [Tese de doutorado] SILVA, Patricia Kunrath. Filantropia e investimento social privado nos Estados Unidos e no Brasil: redes transnacionais de governança econômica. 2017. 259 f. Tese (Doutorado em Antropologia Social) – Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2017.
  • [Artigo] SILVA, Patricia Kunrath; OLIVEN, Ruben George. Filantrocapitalismo versus filantropia para a justiça social: um debate norte-americano sobre como lidar com a pobreza. Mana, Rio de Janeiro, v. 26, n. 1, e261204, 2020. DOI: 10.1590/1678-49442020v26n1a204.
  • [Artigo] SILVA, Patrícia Kunrath. A outra face da desigualdade: a articulação das elites no campo da filantropia e investimento social privado. *Revista Brasileira de Sociologia*, v. 4, n. 8, p. 135-174, 2016. DOI: 10.20336/rbs.153. Disponível em: https://rbs.sbsociologia.com.br/rbs/article/view/184. Acesso em: 16 jun. 2026.
  • [Livro] SKLAIR, Jessica. Brazilian Elites and Their Philanthropy: Wealth at the Service of Development. Abingdon: Routledge, 2021.
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Investimento Social Corporativo https://ofisp-atualizado.carolina-almeida.com/glossario/investimento-social-corporativo/ Tue, 23 Jun 2026 17:17:11 +0000 https://ofisp-atualizado.carolina-almeida.com/?post_type=glossario&p=290 Definição

A definição de Investimento Social Corporativo (ISC) dialoga diretamente com o conceito de Investimento Social Privado (ISP), ou seja, consiste no repasse voluntário, planejado e monitorado de recursos privados — sejam eles financeiros, humanos, técnicos ou materiais — para a realização de projetos de interesse público. Contudo, o recorte ‘corporativo’ segmenta este conceito especificamente para o campo das empresas e/ou seus institutos e fundações empresariais – diferenciando-o de outros recursos mobilizados por iniciativa privada, como indivíduos, famílias e comunidades. O ISC caracteriza-se por sua atuação estratégica e pela busca por gerar impactos sociais e ambientais positivos e mensuráveis, promovendo o desenvolvimento sustentável das comunidades e territórios, ao mesmo tempo em que dialoga com os valores e a estratégia de sustentabilidade das empresas mantenedoras.

Origens e evolução

Da mesma forma, sua origem também está totalmente conectada ao ISP. No exterior, o conceito Corporate Social Investment e derivados, como corporate philanthropy ou community investment são bastante disseminados nas estruturas empresariais. No Brasil, o termo ISC ganha força principalmente a partir de 2008, com a primeira edição da Pesquisa BISC (Benchmarking do Investimento Social Corporativo), que passa a monitorar anualmente este segmento no país até os dias atuais.

Contexto e relevância

Em um contexto em que o setor corporativo está mais envolvido com ações voltadas ao desenvolvimento sustentável e que os investimentos sociais se aproximam da estratégia global das companhias, a diferenciação entre ISP e ISC possui uma dimensão didática e mobilizadora. Didática porque permite compreender o ISC como um conjunto de recursos que possui características distintas de outras fontes de ISP, por se originar no meio empresarial e ter um rito de tomada de decisão e apetite ou aversão a riscos particular. Mobilizadora porque a formação da agenda especificamente em torno da qualificação do ISC e suas melhores práticas mobiliza e engaja líderes e estruturas empresariais que, de outra forma, poderiam não se identificar como investidores sociais em potencial.

Debates, disputas e perspectivas

As disputas em torno do campo, em alguma medida, se assemelham às mesmas existentes no próprio conceito de ISP. Particularmente ao campo empresarial, o ISC está exposto a críticas relacionadas ao efetivo comprometimento das corporações com o desenvolvimento da sociedade. Perspectivas mais críticas apontam que o ISC, assim como a agenda de sustentabilidade e de ESG, serve para empresas desviarem o foco dos impactos ambientais e sociais gerados por suas atividades.

Mesmo para pontos de vista que consideram o ISC uma iniciativa das empresas genuinamente voltada ao interesse público, existem críticas sobre sua abordagem mais voltada aos sintomas dos problemas sociais do que às suas causas raízes – que geralmente passam pela distribuição de renda e poder, crítica bastante presente no campo do ISP em geral.

Mais recentemente, um debate em curso é a integração entre o investimento social e os negócios, na qual se reconhece uma matriz de oportunidades e sinergias para fortalecer a agenda social nas empresas e na sociedade, mas também uma matriz de riscos de enfraquecimento do interesse público do investimento privado.

Materiais para aprofundamento

  • BISC: iniciativa da Comunitas voltada ao fortalecimento e qualificação do investimento social corporativo no Brasil, produz anualmente a única pesquisa dedicada ao investimento social corporativo. Todos os anos, o BISC monitora a evolução deste segmento por meio de dados quantitativos e também produz pesquisas de caráter qualitativo junto à sua Rede BISC, de empresas e institutos/fundações corporativos, para identificação de tendências e agendas prioritárias.
  • Chief Executives for Corporate Purpose (CECP): é uma organização dos EUA que fomenta uma coalizão global de lideranças empresariais focada em direcionar as estratégias corporativas para o impacto social. É uma referência internacional na produção de dados, métricas e relatórios sobre o investimento social e o engajamento comunitário de grandes empresas.
  • Business for Societal Impact (B4SI): referência global em medição e gestão do impacto social corporativo, orientam as empresas a contabilizem o impacto social com a mesma disciplina que qualquer outra área do desempenho empresarial. Propõem estruturas a partir das quais as organizações podem mensurar resultados, demonstrar o retorno sobre o investimento (ROI) e gerenciar o impacto para fortalecer a resiliência e o crescimento a longo prazo.
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Impacto Coletivo https://ofisp-atualizado.carolina-almeida.com/glossario/impacto-coletivo/ Tue, 23 Jun 2026 17:15:39 +0000 https://ofisp-atualizado.carolina-almeida.com/?post_type=glossario&p=288 Definição do conceito

O impacto coletivo é uma abordagem de colaboração intersetorial para problemas sociais complexos que organiza múltiplos tipos de atores em torno de um objetivo comum. A proposta articula cinco princípios centrais: agenda comum (definição compartilhada do problema e da mudança pretendida), mensuração compartilhada (indicadores e dados alinhados), atividades de reforço mútuo (papéis complementares entre participantes), comunicação contínua (rotinas de diálogo que constroem confiança) e uma organização de apoio centralizado (estrutura dedicada à coordenação da iniciativa).

Origens e evolução do verbete

.O impacto coletivo aparece pela primeira vez em 2011, na publicação “Collective Impact”, de John Kania e Mark Kramer, na Stanford Social Innovation Review (traduzida para o português em 2022). Os autores elaboram os cinco princípios centrais da abordagem com base no estudo de três casos empíricos: uma iniciativa educacional no norte do Kentucky; a limpeza do Elizabeth River, na Virgínia; e um programa de combate à obesidade infantil em Massachusetts.

Em 2015, a equidade passa a ser destacada como um fator imperativo para o impacto coletivo, aproximando-o da agenda de justiça social e da atenção às desigualdades estruturais, com ênfase no engajamento das comunidades e na redistribuição de poder na governança colaborativa.

Contexto e relevância

No campo do ISP, o impacto coletivo oferece um “modo de fazer” que organiza coalizões multissetoriais em torno de metas mensuráveis e trajetórias de mudança plausíveis. A abordagem é especialmente útil para fundações e institutos porque os posiciona como potenciais organizações de apoio centralizado, alinhando seu portfólio a uma teoria de mudança compartilhada, com métricas e ritos regulares de aprendizagem, inclusive recortes de equidade. Assim, a abordagem orienta decisões de investimento, integra iniciativas dispersas e aumenta a probabilidade de mudanças duradouras.

Debates, disputas e perspectivas

As principais críticas à abordagem de impacto coletivo são o excesso de indicadores, que priorizam resultados mensuráveis em detrimento de processos democráticos, da aprendizagem local e de mudanças qualitativas, e a pouca atenção dada às práticas de advocacy, já que a maioria das iniciativas não são focadas em estratégias de pressão política voltadas para mudanças estruturais.

Observa-se que a comunidade prática (redes de organizações executoras, institutos e fundações, OSCs, gestores públicos, consultorias e intermediários) tende a priorizar ferramentas operacionais, resultados mensuráveis e a escalabilidade das intervenções, valorizando orientações aplicáveis e mecanismos institucionais que viabilizem as entregas (Holanda, 2025). Já a comunidade acadêmica enfatiza a necessidade de refinar conceitos e investigar empiricamente como o impacto coletivo opera em distintos arranjos institucionais e políticos, explorando diferentes dinâmicas colaborativas, liderança, sustentabilidade e advocacy (Holanda, 2025).

Frente a essas disputas, propõe-se a concepção do impacto coletivo como uma abordagem que exige adaptação contextual: demanda o compromisso real com a participação comunitária e com a transferência de voz e poder e a combinação entre coordenação técnica e estratégias de advocacy para transformar resultados em políticas públicas duradouras (Holanda, 2025). Esse enquadramento mantém a relevância dos cinco princípios centrais do impacto coletivo, mas flexibiliza sua aplicação, reconhecendo que ela não acontecerá da mesma forma em todas as iniciativas que adotarem a abordagem. Assim, reduz a pretensão de um modelo único e desloca o foco para decisões normativas e práticas que determinam se uma iniciativa será inclusiva, legítima e eficaz.

Exemplos de aplicação prática

A maioria das iniciativas que adotam explicitamente a abordagem de impacto coletivo concentra-se nos Estados Unidos, sobretudo na área de saúde. Um exemplo é a San Francisco Cancer Initiative, uma coalizão criada para reduzir a carga de cinco tipos de câncer na cidade de São Francisco por meio de prevenção, detecção precoce e políticas públicas coordenadas. A iniciativa reúne o Departamento de Saúde Pública Municipal, grandes sistemas hospitalares, organizações comunitárias e a Universidade da Califórnia, que atua como organização de apoio centralizado para integrar dados, articular frentes temáticas e sustentar a governança colaborativa ao longo do tempo.

Apesar dessa concentração de iniciativas nos EUA, também há algumas experiências em outras partes do mundo. No Canadá, a Society for Continuing Professional Health Education (SCOPE), uma iniciativa de prevenção da obesidade infantil, mobiliza governos locais, serviços de saúde, escolas, áreas de esporte e lazer, mídia e organizações comunitárias em torno de uma mensagem comum de hábitos saudáveis. No Brasil, o programa Áreas Protegidas da Amazônia (ARPA for Life) alinha o Governo Federal, organizações ambientais e financiadores públicos e privados internacionais por meio de um arranjo financeiro de longo prazo que vincula desembolsos ao cumprimento de metas de conservação, garantindo sustentabilidade institucional e orçamentária para proteger dezenas de milhões de hectares de floresta. Outro exemplo são as iniciativas em pescarias artesanais no México, que reúnem organizações locais, apoiadas por atores da filantropia internacional, para estabelecer metas comuns de manejo sustentável.

Materiais para aprofundamento

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Fundo Patrimonial Filantrópico https://ofisp-atualizado.carolina-almeida.com/glossario/fundo-patrimonial-filantropico/ Tue, 23 Jun 2026 17:13:22 +0000 https://ofisp-atualizado.carolina-almeida.com/?post_type=glossario&p=286 Definição

Fundos patrimoniais filantrópicos são conjuntos de ativos privados, financeiros ou não (bens móveis e imóveis, direitos) constituídos e administrados com a finalidade de gerar rendimentos que serão destinados, a longo prazo, a organizações e causas de interesse público. A perenidade dessa fonte de recursos é assegurada pela preservação do valor acumulado e uso exclusivo dos rendimentos produzidos pela gestão do conjunto de ativos, diferentemente das doações convencionais nas quais os recursos recebidos são integralmente aplicados no curto ou médio prazos.

Origens e evolução

Internacionalmente, o conceito de fundo patrimonial filantrópico é igualado ao termo de endowment, tendo origem em “to endow money”, que significa vincular recursos a uma causa ou organização, criando assim uma “dotação patrimonial” cujo conjunto de ativos estará permanentemente atrelado a um beneficiário, causa ou instituição.

Assim, o modelo foi aplicado inicialmente a universidades e instituições filantrópicas europeias e estadunidenses, passando a ganhar maior visibilidade no Brasil a partir da década de 2010, em que foram promovidos importantes debates dentro e fora do ecossistema do terceiro setor e do Investimento Social Privado (ISP).

Nesse cenário, ganha destaque as ações de produção de conhecimento e advocacy promovidas pelo Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (IDIS), que criou e lidera a Coalizão pelos Fundos Filantrópicos com o objetivo de articular, promover e apoiar a aprovação da legislação em torno dos Fundos Patrimoniais no país. O movimento foi primordial para a promulgação da Lei nº 13.800, de 2019, que estabeleceu o marco legal para a constituição e gestão de fundos patrimoniais destinados ao financiamento de instituições públicas e organizações da sociedade civil.

Contexto e relevância

Os fundos patrimoniais filantrópicos têm se tornado cada vez mais uma ferramenta estratégica para endereçar diferentes temáticas do ISP, assumindo uma posição privilegiada no ecossistema, na medida em que atende tanto à institutos e fundações corporativos, quanto instituições familiares, independentes e até mesmo públicas em seus respectivos desafios e prioridades.

Os fundos patrimoniais filantrópicos mostram ser instrumentos importantes para reduzir a dependência de recursos e diversificar as fontes de renda dessas instituições, contribuindo para sua sustentabilidade financeira. Ao mesmo tempo, despontam como solução para filantropos e famílias que buscam preservar seu propósito e construir um legado de impacto social.

Debates, disputas e perspectivas

Ainda que a definição teórica e jurídica de Fundos Patrimoniais Filantrópicos seja bastante objetiva, dentro do ecossistema do ISP não há um entendimento consolidado dos objetivos e características dos fundos patrimoniais. Desse modo, é comum ainda a confusão do conceito com outros próximos como fundo de investimento ou fundo de reserva, por exemplo.

Nesse mesmo caminho, ainda há desconhecimento sobre os mecanismos de funcionamento dos fundos patrimoniais e poucos incentivos fiscais para a doação para estas estruturas. Esse cenário, combinado a uma cultura de doação ainda reticente e uma preferência pelo exercício filantrópico no curto e médio prazo, indica certa resistência à ideia de preservação do principal com a destinação somente dos rendimentos líquidos de inflação, distanciando doadores e desmobilizando a criação de novos fundos.

Exemplos de aplicação prática

Dentro e fora do Brasil existem diversos exemplos de fundos patrimoniais familiares, corporativos ou independentes, beneficiando diferentes causas e instituições. Segundo dados do Monitor de Fundos Patrimoniais no Brasil, em abril de 2026, a principal causa apoiada pelos fundos no Brasil era a educação, seguida por assistência social, ciência e tecnologia pesquisa e conhecimento. Saúde, cultura e Patrimônio histórico e artístico também estão entre as mais citadas no levantamento.

No cenário internacional, Harvard possui o maior patrimônio universitário do mundo na atualidade, somando R$ 288 bilhões que são dedicados à educação. Após o anúncio de congelamento de mais de R$ 11 bilhões em financiamento federal em 2025, o fundo patrimonial de Harvard tornou-se um exemplo do potencial dos fundos para a garantia de proteção institucional e autonomia universitária. No Brasil, as universidades também vêm demonstrando interesse na constituição de seus próprios fundos; exemplo importante foi o lançamento, em 2021, do fundo patrimonial da Universidade de São Paulo, dedicado ao ensino e pesquisa universitária, além da promoção de diversidade, inclusão social e permanência estudantil.

A Fundação Bradesco também atua com a educação, destacando-se como o maior fundo patrimonial brasileiro. Constituído em 1965, somava, de acordo com o Anuário de Fundos Patrimoniais 2024, R$ 85 bilhões em patrimônio, dedicando-se à promoção da educação de qualidade no país, para crianças, jovens e adultos.

Materiais para aprofundamento

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Overhead https://ofisp-atualizado.carolina-almeida.com/glossario/overhead/ Tue, 23 Jun 2026 17:03:09 +0000 https://ofisp-atualizado.carolina-almeida.com/?post_type=glossario&p=277 Definição

Overhead refere-se aos custos indiretos necessários para sustentar a capacidade estratégica e operacional de uma organização e viabilizar a realização de sua missão. O termo, oriundo da contabilidade gerencial, encontra correspondência no Brasil em expressões como custos administrativos, custeio institucional, custos com atividades-meio ou taxa administrativa.

Diferentemente dos custos diretos, que estão diretamente associados à implementação de projetos, programas ou serviços (atividades-fim), o overhead compreende as despesas estruturais e administrativas — frequentemente chamadas de atividades-meio — sem as quais a organização não consegue operar de forma eficiente, ética e sustentável para realizar sua missão. No campo das organizações da sociedade civil (OSCs), o overhead é um conceito relevante para analisar a viabilidade institucional e a efetividade do impacto social e/ou ambiental no médio e longo prazo.

Origens e evolução

O termo overhead tem origem na contabilidade gerencial e passa a ser amplamente utilizado no campo filantrópico internacional a partir do final do século XX, especialmente nos Estados Unidos, com a consolidação da distinção entre custos diretos e custos indiretos. A partir dos anos 1990, o crescimento das exigências por eficiência, transparência e métricas comparáveis levou muitos financiadores a utilizar o percentual de overhead como indicador simplificado de boa gestão. Consolidou-se, assim, a lógica de que quanto menor o percentual de despesas indiretas, maior seria a eficiência da organização — premissa posteriormente questionada por estudos acadêmicos e por análises do próprio campo empresarial.

Essa prática foi progressivamente contestada por pesquisadores e lideranças do setor, que demonstraram que a compressão sistemática dos custos indiretos compromete capacidades organizacionais essenciais. Estudos como o Nonprofit Overhead Cost Project, no início dos anos 2000, evidenciaram que o subfinanciamento do overhead gera um círculo vicioso de fragilização institucional, conhecido como nonprofit starvation cycle. Mais recentemente, a iniciativa Funding for Real Change confirmou a ocorrência desse fenômeno em organizações fora dos Estados Unidos.

No Brasil, o termo overhead é amplamente utilizado no âmbito do Investimento Social Privado (ISP), sobretudo por financiadores, como parte da análise orçamentária de projetos e organizações apoiadas. A resistência não está no uso do conceito em si, mas no reconhecimento de seus efeitos estruturais: enquanto os percentuais costumam ser definidos pelos financiadores, muitas OSCs — especialmente as de pequeno porte — não utilizam o conceito como instrumento de análise da própria viabilidade institucional, seja pela escassez de recursos, seja pela dependência de financiamentos restritos e de curto prazo. O setor público, relevante financiador do campo social e ambiental no país, também estabelece limites formais para despesas administrativas, reforçando essa lógica de controle sobre os custos indiretos.

Contexto e relevância

No uso contemporâneo do campo do ISP, overhead é compreendido predominantemente como sinônimo de custos indiretos, isto é, os custos necessários para sustentar a organização como um todo. Esses custos incluem, entre outros, gestão administrativa e financeira, recursos humanos, governança, contabilidade, auditoria, assessoria jurídica, tecnologia da informação, comunicação institucional, captação de recursos, planejamento e avaliação.

Entretanto, a prática de separar e analisar custos diretos e indiretos ainda tem pouca aderência entre as OSCs brasileiras. Grande parte das organizações opera com estruturas voluntárias ou com recursos escassos e equipes reduzidas, muitas vezes orientadas pela lógica de projetos de curto prazo. Nesses contextos, não dispõem de sistemas contábeis ou gerenciais estruturados para calcular de forma realista seus custos indiretos. Como consequência, tendem a aceitar os percentuais definidos pelos financiadores, mesmo quando insuficientes, o que amplia sua vulnerabilidade institucional.

A discussão sobre overhead é estratégica para institutos, fundações, empresas e financiadores independentes, pois impacta diretamente a qualidade, a escala e a sustentabilidade do impacto social ao longo do tempo. Organizações que não conseguem financiar adequadamente sua estrutura tendem a operar com baixa capacidade institucional, comprometendo seus resultados e sua missão.

No campo do financiamento público, o debate assume contornos adicionais. Editais e convênios governamentais frequentemente estabelecem limites pré-fixados para despesas administrativas, restringindo a autonomia das organizações na definição de seus custos indiretos e gerando distorções na composição orçamentária.

Como é calculado e quais são os parâmetros adotados

A forma mais comum de mensuração do overhead é como percentual do orçamento total da organização, calculado a partir da razão entre os custos indiretos e o orçamento institucional total. Em contextos de financiamento de projetos — abordagem predominante no Brasil — o overhead também pode ser definido como uma taxa administrativa aplicada sobre os custos diretos, prática frequente entre financiadores nacionais e internacionais, agências multilaterais e editais públicos.

Não existe consenso global sobre um percentual ideal de overhead. Estudos indicam ampla variação — frequentemente entre 15% e 35% — dependendo do porte, da área de atuação, da maturidade institucional e do modelo operacional da organização. A literatura contemporânea é enfática ao afirmar que percentuais isolados não são bons indicadores de eficiência ou impacto.

Na prática, quem define o percentual de overhead na maior parte dos financiamentos são os próprios financiadores, por meio de tetos pré-estabelecidos em editais, contratos ou políticas institucionais. Essa assimetria de poder influencia a estrutura de custos das OSCs e limita sua autonomia para definir, de forma estratégica, o que é necessário para cumprir sua missão. Em resposta a essas limitações, ganha força a abordagem do financiamento por custo total (full cost funding), que defende o financiamento adequado de todos os custos necessários para a geração de impacto social.

Debates, disputas e perspectivas

O principal debate em torno do overhead reside em sua interpretação normativa. Uma visão ainda dominante associa custos indiretos elevados à ineficiência, enquanto outra, cada vez mais consolidada internacionalmente, entende o overhead como investimento em capacidade organizacional e em resultados de longo prazo.

Financiadores internacionais, parte da academia e lideranças do terceiro setor defendem que o problema não é o nível do overhead, mas sua adequação, transparência e alinhamento estratégico. Movimentos como Funding for Real Change e Trust-Based Philanthropy expressam essa mudança de paradigma ao questionar métricas simplistas e defender financiamentos mais flexíveis e institucionais.

Nesse sentido, o debate sobre overhead conecta-se diretamente ao conceito de desenvolvimento institucional, pois o financiamento adequado da estrutura organizacional é condição para o fortalecimento da governança, da gestão, das equipes e da sustentabilidade das organizações. Sem o reconhecimento legítimo do custo real da estrutura, o desenvolvimento institucional torna-se limitado ou inviável.

Materiais para aprofundamento

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Sociedade Civil https://ofisp-atualizado.carolina-almeida.com/glossario/sociedade-civil/ Fri, 19 Jun 2026 16:08:51 +0000 https://ofisp-atualizado.carolina-almeida.com/?post_type=glossario&p=180 Introdução

O conceito de sociedade civil possui uma longa trajetória na filosofia, nas ciências sociais e, também, no debate público. Nesta trajetória, o conceito apresentou diversas definições, que se diferenciam tanto em termos dos elementos da realidade social apreendidos pelo conceito, quanto em termos da valoração normativa de tais elementos. Algumas destas definições tiveram e têm um uso corrente no Brasil, disputando os entendimentos contemporâneos da sociedade civil no país. Assim, o objetivo deste verbete é apresentar tais definições, indicar algumas de suas referências centrais e abordar sinteticamente suas implicações analíticas e normativas para o campo da filantropia e do investimento social privado (ISP).

O debate sobre sociedade civil no Brasil

Pode-se destacar a definição de sociedade civil na obra de Antonio Gramsci como uma referência fundamental, que começa a se disseminar no Brasil a partir da segunda metade dos anos 1970. O conceito de sociedade civil em Gramsci integra um modelo teórico para abordar o processo de dominação de classe nas sociedades “ocidentais”. De acordo com esse modelo, a reprodução das relações de poder nessas sociedades opera, em grande medida, não pela coerção aberta das classes dominadas, como ocorre nas sociedades “orientais”, mas sim pela capacidade de construção de uma direção moral e intelectual das classes dominantes. Tal direção é apreendida pelo conceito de hegemonia.

Nesse modelo, a sociedade civil é definida como “o conjunto de organismos chamados comumente de privados (…), que correspondem à função de ‘hegemonia’ que o grupo dominante exerce em toda a sociedade” (Gramsci, 1982, p. 10-11). Empiricamente, o conceito de sociedade civil apreende instituições e organizações sociais que têm o papel de produção e difusão de ideologias, valores, normas e conhecimentos em uma dada sociedade. Como exemplos, destacam-se escolas, igrejas, universidades, meios de comunicação, organizações sociais, entre outras.

Assim, de um lado, os elementos culturais produzidos e difundidos pela sociedade civil são centrais na reprodução da hegemonia da classe dominante. De outro lado, no entanto, também é possível que instituições e organizações sociais assumam um papel contra hegemônico, produzindo e difundindo ideologias, valores, normas e conhecimentos que confrontam a direção moral e intelectual da classe dominante. Como se percebe, a sociedade civil gramsciana não apresenta uma valoração normativa dada. Ao contrário, ela tende a ser um campo de disputa, no qual a hegemonia da classe dominante tende a se reproduzir, mas sob a pressão e os desafios contra hegemônicos.

Paralelamente ao uso da definição gramsciana, observa-se na década de 1990 a entrada e rápida disseminação de uma outra definição de sociedade civil: a sociedade civil como o conjunto de formas associativas constituídas na sociedade, apresentando uma autonomia em relação ao mercado e ao Estado. De um lado, sob influência de Alexis de Tocqueville, essa definição atribuía ao mundo associativo um papel fundamental na formação das condições intelectuais e comportamentais para a democracia. De outro lado, sob influência de Jurgen Habermas, as organizações da sociedade civil eram concebidas como os mecanismos responsáveis pela construção e expressão dos interesses e demandas societárias na esfera pública, oportunizando dessa forma que tais interesses e demandas influenciem as decisões e ações do Estado, democratizando-as. Sérgio Costa, por exemplo, sintetiza essa perspectiva com a seguinte definição: “A sociedade civil, com seu conjunto de associações voluntárias, independentes do sistema econômico e político-administrativo, absorve, condensa e conduz de maneira amplificada para a esfera pública os problemas emergentes nas esferas privadas, no mundo da vida” (1994, p.44).

Diferentemente da definição gramsciana, aqui observa-se a tendência de atribuição de uma positividade intrínseca à sociedade civil. Tal tendência, particularmente em um contexto marcado por experiências históricas de forte autoritarismo e violências estatais como o brasileiro, alimentou uma interpretação dicotômica e maniqueísta na qual se contrapunham uma “boa” sociedade civil a um “mau” Estado (Dagnino, 2002).

A análise de processos históricos, no entanto, contribuíram para uma crescente problematização da atribuição de uma positividade intrínseca à sociedade civil. Tal problematização se fundamentou no questionamento de pressupostos teóricos que embasaram a positivação da sociedade civil, como observa-se em Foley e Edwards (1996). Em especial, questionou-se a tendência de restrição do conceito a certos tipos de organizações e movimentos sociais que expressavam os conteúdos positivos atribuídos à sociedade civil (Lavalle, 2003). Em decorrência dessa restrição, gerava-se uma exclusão teórica de diversos outros tipos de organizações e movimentos que se contrapunham a tais conteúdos ao apresentarem, por exemplo, vínculos com o Estado ou o mercado, posições conservadoras, práticas de corrupção, clientelismo e/ou violência (Ballestrin, 2015).

A emergência de movimentos sociais e políticos autoritários com forte ancoragem em amplas redes associativas em diversos países do mundo, com destaque para o Brasil, vai chamar a atenção de pesquisadoras e do debate público para uma importante e, em grande medida, desconhecida sociedade (in)civil (Glasius, 2010). Observa-se, assim, uma crescente percepção de que o mundo associativo pode sim atuar como uma “escola de democracia” nos termos de Tocqueville, mas também pode apresentar um protagonismo na difusão da intolerância e da violência (Alves, 2022).

Apesar da continuidade da convivência e da concorrência de definições distintas de sociedade civil, considera-se que tende a predominar atualmente um entendimento da sociedade civil como o mundo associativo composto por uma grande diversidade de organizações e movimentos sociais. Apesar de ainda manter-se uma relativa positivação, percebe-se uma tendência crescente de perceber tal mundo associativo como um campo de disputa entre redes de organizações e movimentos orientados por diferentes projetos políticos e apresentando repertórios de ação heterogêneos.

Contexto e relevância

Quando se observa a literatura e as posições no debate público sobre filantropia e ISP no Brasil que mobilizam o conceito de sociedade civil, é possível identificar a presença das diferentes definições identificadas na seção anterior. Especialmente nos estudos que abordam as ações de advocacy das organizações do campo filantrópico (e, mais especificamente, da filantropia corporativa ou empresarial) nas políticas públicas, destaca-se a forte influência da definição gramsciana de sociedade civil. De acordo com essa abordagem, essas organizações tendem a ser definidas como aparelhos privados de hegemonia que atuam fundamentalmente na reprodução da dominação de classe.

Paralelamente a essa abordagem crítica, a filantropia e o ISP tenderam a receber uma interpretação ambígua de analistas e intelectuais que adotaram as referências tocquevillianas e/ou habermasianas de sociedade civil: de um lado, enquanto parte da sociedade civil (ou, ainda, de um terceiro setor “privado porém público” – Fernandes, 1994), compartilharam aquela positividade conferida ao associativismo societal; de outro lado, enquanto organizações tendencialmente vinculadas ao mercado, acabavam sendo excluídas do mundo associativo apreendido pelo conceito de sociedade civil.

Adotando uma definição normativamente mais neutra e que incorpora a heterogeneidade como elemento intrínseco à sociedade civil, o associativismo filantrópico, enquanto um subcampo dentro da sociedade civil, seria marcado por concepções e formas de ação diversas, que convivem e disputam o sentido da filantropia brasileira.

Leituras. referências e links sugeridos

  • ALVES, Mario Aquino. Civil society studies in Brazil: from third sector to uncivil society?. In: BIEKART, Kees; FOWLER, Alan (eds.). A Research Agenda for Civil Society. Cheltenham: Edward Elgar Publishing, 2022.
  • BALLESTRIN, Luciana Maria de Aragão. Sociedade civil, democracia e violência. Revista Brasileira de Ciências Sociais, vol. 30, n° 87, 2015.
  • COSTA, Sérgio. Esfera pública, redescoberta da sociedade civil e movimentos sociais no Brasil – uma abordagem tentativa. Novos Estudos, São Paulo, nº 38, 1994.
  • DAGNINO, Evelina (org.). Sociedade Civil e Espaços Públicos no Brasil. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2002.
  • FOLEY, Michel W.; EDWARDS, Bob. The paradox of civil society. Journal of Democracy, 7.3, 1996.
  • FERNANDES, Rubem César. Público porém Privado: o terceiro setor na América Latina. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1994.
  • GLASIUS, Marlies. Uncivil society. In: ANHEIER, Helmut K.; TOEPLER, Stefan; LIST, Regina List (eds). International Encyclopedia of Civil Society. New York: Springer, 2010.
  • GRAMSCI, Antonio. Os Intelectuais e a Organização da Cultura. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1982.
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